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Por Angela Freitas
O Brasil se despede de uma grande cidadã, cuja herança intelectual e política será sempre uma referência para mulheres que atuam na política e na luta por uma sociedade mais justa. Mulheres de Olho conversou com algumas delas:
“O falecimento da antropóloga Ruth Cardoso significa uma grande perda para o País, tendo em vista o seu compromisso com a democracia e a justiça social. Ruth Cardoso ocupou com brilhantismo o espaço das mulheres no mundo acadêmico, com intensa produção científica e reflexiva acerca dos fenômenos sociais e culturais do Brasil e da América Latina. Ela sempre será lembrada pela sua luta e iniciativas”. Ministra Nilcéa Freire, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.
** “Trabalhei com Ruth Cardoso durante a primeira parte dos anos 1980 e no processo Constituinte de 1988. Pessoa excelente para trabalhar e fácil de lidar, muito educada e extremamente delicada. A perda é muito grande para os feminismos do século 21. Perdemos uma grande companheira”. Amelinha Teles, da União de Mulheres de São Paulo/ Coordenadora do Projeto Promotoras Legais Populares, junto com o Instituo Brasileiro de Advocacia Pública e o Movimento do Ministério Público Democrático.
** “Esta é uma perda inesperada, e por isto mais forte. Ruth Cardoso ainda tinha uma vida intelectual e acadêmica absolutamente ativa, com participação em bancas de concursos e orientação de teses. Acho que a Profa. Ruth resignificou o lugar da mulher na política pública quando foi primeira-dama, designação de que não gostava. Em um ambiente da política tradicional, ela inventou um lugar novo e o ocupou como feminista. Fez isto com criatividade porque sempre tinha respostas não-óbvias e agia com independência. Por várias vezes manifestou opiniões que não eram as formais, do Presidente, ou do Partido. Agia com pragmatismo: tinha idéias e as colocava em prática transformando-as em ação. Era discreta e modesta no sentido bom dessas palavras, o que permitia que transitasse no ambiente público institucional e exercesse o poder sem se deixar contaminar. Esta é uma lição importante em uma país onde as pessoas são muito destituídas de poder, em particular as mulheres. Muitas vezes as pessoas se perdem na trajetória que leva ao lugar de poder. Ela percorreu essa trajetória de maneira honrada”. Denise Dora, Senior Program Officer do Programa de Direitos Humanos da Fundação Ford.
“Há pessoas que agem sempre de acordo com seus princípios e convicções, independentemente das circunstâncias e ou da posição que ocupa. Transmitem firmeza e honestidade. São confiáveis. Ruth Cardoso fazia parte deste seleto e escasso grupo de pessoas. Com ela convivi como professora da USP, por ocasião de meu doutoramento, e como conselheira do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, quando presidi este órgão. Acompanhei sua trajetória como esposa do presidente Fernando Henrique e coordenadora de programas sociais. Antropóloga com formação intelectual sólida, Ruth Cardoso sempre teve um compromisso com os direitos das mulheres. Em diferentes ocasiões assumiu que era feminista, com a tranqüilidade de quem não teme os preconceitos associados a esta palavra. Sem estardalhaço, sem pirotecnia, Ruth Cardoso assumiu posições firmes em defesa das mulheres, como quando defendeu a lei do Planejamento Familiar que tinha sido vetada, em um primeiro momento, pelo Presidente. A trajetória de Ruth Cardoso enriquece a história das mulheres brasileiras”. Jacqueline Pitanguy, Diretora da Cepia Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação, Ação.
** “Fiquei muito triste com a notícia. Acho que perdemos uma grande antropóloga e uma mulher que faz parte da história do feminismo brasileiro. No primeiro Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, estivemos juntas como conselheiras, na segunda metade dos anos 80. Foi o tempo das lutas pelos direitos das mulheres na Assembléia Nacional Constituinte. O tempo passa rápido e ela partiu cedo demais”. Maria Betânia Ávila, Coordenadora do SOS Corpo, Instituto Feminista para a Democracia.
** “A antropóloga e feminista Ruth Cardoso é uma referência intelectual da maior importância para o feminismo e os estudos acadêmicos sobre os novos movimentos sociais, que ousavam abrigar a diversidade sob uma perspectiva política. Ruth Cardoso contribuiu para a concepção e criação do primeiro Conselho dos Direitos da Mulher, em São Paulo, em 1983. No Comunidade Solidária, também inovou: combinava a abordagem da inclusão social com a da igualdade entre homens e mulheres e o recorte étnico/racial. Penso que a significativa repercussão da morte de Ruth Cardoso na mídia brasileira é em si um fato político da maior importância, pois ela está sendo retratada como uma brilhante intelectual, uma mulher política, independente, com luz própria, uma crítica severa da injustiça social, inovadora no pensar e no propor outros modelos para as políticas sociais. Desde o momento da sua partida Ruth Cardoso tem sido apresentada nos telejornais como antropóloga e feminista. Trata-se de uma trajetória ímpar de coerência, delicadeza, ética e extraordinário rigor com seus princípios políticos”. Jacira Vieira de Melo, Diretora Executiva do Instituto Patrícia Galvão.
** “Tive o prazer de conviver com a Profa. Ruth Cardoso entre 1985 e 1987, como aluna, quando cursei doutorado no Departamento de Ciência Política da USP. Era uma pessoa maravilhosa: totalmente aberta ao diálogo e, principalmente, firme em relação a seus princípios éticos. O feminismo fez parte de sua vida cotidiana e pública e com ela aprendi muito sobre as diversas abordagens do pensamento feminista. Era rigorosa como professora e como pessoa, e uma cidadã crítica, solidária e tolerante com as diferenças, mas absolutamente intolerante com a desigualdade social. O feminismo ativista perde com sua morte, o pensamento feminista perde uma de suas maiores precursoras no Brasil e na América Latina, e eu perco uma grande amiga. Reverenciemos a trajetória de vida dessa grande mulher!” Eleonora Menicucci, socióloga, Profa. Titular do Departamento de Ciência Política da USP. Por Angela Freitas/ Instituto Patrícia Galvão
Fonte: Mulheres de Olho em 25 de junho de 2008
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